Alfabetização e inclusão digital

Alfabetização e inclusão digital

(este texto foi escrito em 20.08.07 para disciplina da Pós Graduação em Gestão da Comunicação da ECA-USP)

Vivemos em um país onde o índice anual de leitura é de cerca de 1,8 livros per capta. Muito baixo, se comparado aos da Inglaterra (4,9), Estados Unidos (5,1) e França (7). Por outro lado, cerca de ¼ da população brasileira costuma acessar a internet, segundo Ibope. Precisamos conhecer mais de perto quem são esses potenciais leitores da rede, e se programas de incentivo ao uso do computador poderiam estimular o interesse pela leitura em geral.

Com a criação do Inaf – Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional pelo Instituto Paulo Montenegro, em 2001, o Brasil dá um grande passo para descobrir quais fatores influenciam diretamente na alfabetização de seu povo, e qual seria a raiz do desinteresse pela leitura. Isso porque, além de considerar o período que o brasileiro passa na escola, o Inaf agrega outros fatores relacionados ao contato com a leitura e a escrita, nos diversos campos do convívio sócio-cultural.

Realizada pelo Ibope com uma amostragem de 2000 pessoas entre 15 e 64 anos, a pesquisa que dá origem ao Inaf leva em conta as esferas doméstica, do trabalho, do lazer, da participação cidadã, da educação e da religião. Afinal, a relação com a cultura impressa realiza-se diariamente, seja na leitura de uma placa ou de uma receita culinária, seja em atividades que exigem uma complexa capacidade de reflexão.

“O objetivo do Inaf é oferecer informação qualificada para que as sociedades e os governos possam avaliar a situação da população quanto a um dos principais resultados da educação escolar: a capacidade de acessar e processar informações escritas como ferramenta para enfrentar as demandas cotidianas, para informar-se e seguir aprendendo ao longo da vida.” (Inaf 2005).

Além disso, o indicador propõe analisar de forma mais cuidadosa o analfabetismo no País, por entender que as pessoas que se dizem alfabetizadas nem sempre conseguem utilizar a leitura e a escrita para se desenvolver. Vale ressaltar que o termo “analfabetismo” já está bastante desgastado, pois é empregado frequentemente em tom pejorativo, para qualificar um indivíduo como “ignorante” ou “subdesenvolvido”. Por isso, o Inaf promove um novo olhar sobre a relação com a leitura e a escrita, a que chama de “letramento”.

A reflexão proposta pelo Inaf deu origem a diversos conceitos e graus de alfabetização:

– Analfabeto: Não consegue realizar tarefas simples que envolvem decodificação de palavras e frases.
– Alfabetizado Nível Rudimentar: Consegue ler títulos ou frases, localizando uma informação bem explícita.
– Alfabetizado Nível Básico: Consegue ler um texto curto, localizando uma informação explícita ou que exija uma pequena inferência.
– Alfabetizado Nível Pleno: Consegue ler os textos mais longos, localizar e relacionar mais de uma informação, comparar vários textos, identificar fontes.

O Inaf foi divulgado em 2001, 2003 e 2005, para as habilidades de leitura e escrita, e em 2002, 2004 e 2006, para as habilidades matemáticas. De 2001 a 2005, observou-se uma pequena redução do índice de analfabetismo para as habilidades de leitura e escrita, porém o índice de alfabetização nos níveis rudimentar, básico e pleno pouco evoluiu.

Acesso ao computador
Entre os Analfabetos, nenhum dos entrevistados usa computador. Já no grupo de Alfabetizados Nível Rudimentar, 6% usam computador; no Nível Básico, 23%; e no Nível Pleno, 54%. De 2001 a 2005, a parcela da população que utiliza o computador aumentou – representa ¼ da população. Desse grupo, 82% consultam e fazem pesquisas na internet, e 70% enviam e recebem e-mails.

“O uso do computador é inexpressivo entre os Analfabetos e Alfabetizados Nível Rudimentar. Entretanto, entre as pessoas mais escolarizadas, onde o acesso é maior, seu uso mostrou ter uma influência destacada no desenvolvimento das habilidades da leitura.” (Inaf 2005).

Essa afirmação contrapõe-se aos dados sócio-econômicos divulgados na mídia em 2006, depois, portanto, da divulgação do último Inaf. Apontou-se que, com a queda dos impostos para a compra de computadores, promovida pelo governo brasileiro em 2005, a população de baixa renda começou a comprar equipamentos por R$ 1.000,00.

De acordo com o Ibope, entre outubro e novembro de 2006, a internet no Brasil ganhou um milhão de novos usuários, entre eles pessoas de baixa renda. Se não conta com internet em casa, essa faixa da população acessa a rede em locais públicos, como os “telecentros”, espalhados por 2.057 municípios brasileiros. Até o final de 2007, o governo brasileiro promete levar telecentros para todos os 5.561 municípios do País.

O computador poderia se tornar uma ferramenta positiva para ampliar o interesse pela escrita e pela leitura? A próxima edição do Inaf contribuirá para esse entendimento, bem como para antecipar políticas de educação para os futuros leitores brasileiros. Caberá ao governo promover programas mais consistentes de “inclusão digital”. Não bastará oferecer acesso ao computador, será preciso utilizá-lo como instrumento de alfabetização.

Roberta da Purificação

[Artigos] [Livros]

Postado em 21/06/2008